A estabilidade que esconde a crise
No 2º trimestre de 2026, o número que vai ao ar — o Recorte Monitor RJ 1.0 — registra 5.535 empresas em recuperação judicial, alta de 3,0% sobre o 4T/2025 na série revista. Mas a leitura que mais importa está na base ampla: considerando todos os CNPJ-matriz com marca de RJ, o estoque chega a 7.980 — +254 no trimestre, em ritmo pleno, sem qualquer inflexão.
O recorte recuou pontualmente no trimestre não porque a crise arrefeceu, mas porque um lote de inaptidão da Receita retirou cerca de 309 empresas do filtro de “ativa” em junho. Elas seguem no estoque; apenas saíram do recorte. A “estabilidade” do número oficial é, portanto, um artefato de filtro cadastral.
Entradas altas, saídas escassas
Foram 419 novas recuperações captadas no trimestre, contra apenas 164 recuperações (39% das entradas) e 1 falência formal. Em toda a série, a recuperação genuína fica entre um quarto e menos da metade das entradas — o funil absorve muito e devolve pouco. O estoque recorde de hoje é herança de três anos de entradas altas com saídas escassas.
Mortalidade silenciosa
As RJ declaradas inaptas saltaram de 294 para 592: empresas em recuperação que pararam de declarar à Receita — não recuperaram nem faliram formalmente. Parte do salto vem de um lote cadastral (42 voltaram à condição ativa já em julho), mas o indicador vale como termômetro: se seguir subindo fora de lotes, sinaliza recuperações que terminam em abandono.
A crise tem endereço — e ele é o campo
O agro respondeu por 1 em cada 3 das novas RJ do trimestre (+125 das 419), seguido de comércio (+87) e indústria (+72). Por porte, a crise desce a pirâmide — a micro multiplicou seu estoque por 3,4 desde 2023. Por geografia, acelera no cinturão de grãos: Mato Grosso do Sul (+111% em 12 meses), Paraná (+45%), Minas Gerais (+40%), Mato Grosso (+36%) e Rio Grande do Sul (+29%). São Paulo concentra o maior estoque (2.263), mas com incidência baixa.