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Estudo de caso · RE·11/03/2026

Raízen (RAIZ4) — a maior recuperação extrajudicial da história do Brasil

Análise Claudio Damasceno — RGF Associados / BIZDOC

Análise C Damasceno - Estudo

Raízen (RAIZ4) — Recuperação Extrajudicial

Contexto, diagnóstico pela metodologia QUANTUMCD e projeção setorial — publicação técnica

Evento: recuperação extrajudicial — 11/03/2026 | Dívida sujeita: ~R$ 65,4 bilhões | Setor: energia / combustíveis / açúcar e etanol

1. Sumário executivo

Em 11/03/2026 a Raízen — joint venture de Cosan e Shell e uma das maiores empresas de energia do país — protocolou a maior recuperação extrajudicial (RE) da história do Brasil, para reestruturar cerca de R$ 65,4 bilhões de uma dívida bruta que beirava R$ 75 bilhões. O plano final reuniu adesão de ~75–80% dos credores.

O caso é uma asfixia financeira que já cruzou para a erosão patrimonial. O serviço da dívida (resultado financeiro de −R$ 11,9 bi no exercício) superou a geração operacional, e o patrimônio líquido virou negativo em −R$ 8,3 bilhões em março de 2026, com capital de giro negativo de −R$ 51,2 bi. A PwC incluiu ênfase de continuidade (going concern).

A tendência foi de deterioração acelerada: prejuízo de R$ 27,1 bilhões no exercício 2025/26 (com ~R$ 22,5 bi de impairment e baixas fiscais), dívida líquida saltando de R$ 34,3 bi para R$ 58,2 bi, alavancagem a 5,3x e perda do grau de investimento pelas três agências. A RE formaliza uma probabilidade de default já elevada — traduzida na conversão de 45% da dívida em capital.

Claudio Damasceno

Sócio Bizdoc Change & Management e RGF ASSOCIADOS

2. A operação de recuperação extrajudicial

Os termos do plano final (jun/2026) podem ser resumidos assim:

Item Detalhe
Instrumento Recuperação extrajudicial (RE) — protocolo em 11/03/2026; a maior do país
Dívida objeto ~R$ 65,4 bi sujeitos à RE (dívida bruta total ~R$ 75 bi; dívida líquida R$ 58,2 bi)
Adesão ~75–80% dos créditos no plano final (jun/2026)
Conversão em capital Credores convertem ~45% da dívida em ações a R$ 0,25 e passam a deter >80% da companhia
Aportes Shell R$ 3,5 bi (a R$ 0,25/ação) + Aguassanta (Ometto) R$ 500 mi. Cosan NÃO aporta — diluída a ~3–4%
Reorganização Cisão prevista em duas empresas (Combustíveis e Energia) até 31/12/2027
Desinvestimentos ~R$ 5 bi em 12 meses; venda da operação da Argentina por US$ 1,42 bi à Mercuria (jun/2026)

Leitura do desenho: a conversão de dívida em ações e a diluição do controlador Cosan a uma fração mínima são a expressão prática de uma probabilidade de default elevada — o credor aceita virar sócio porque a recuperação em dívida, líquida do risco, é menor que o upside do capital reestruturado.

Nota de execução: as primeiras convocações de assembleias de debenturistas/CRA enfrentaram dificuldade de quórum — risco recorrente em reestruturações desse porte.

3. Contexto: como a maior JV de energia chegou à maior RE do país

A Raízen combinou expansão intensiva em capital em um ciclo de juros altos com apostas tecnológicas que não se pagaram e um choque climático sobre a safra — tudo sob uma estrutura de dívida que cresceu mais rápido que a geração de caixa.

Cronologia da deterioração

Período Fato
até 2021 Aquisição da Biosev (ativos da Louis Dreyfus) adiciona escala — e dívida/integração. Aposta pesada em etanol de 2ª geração (E2G), a maior do mundo.
Nov/2024 Troca de comando: Nelson Gomes assume como CEO no lugar de Ricardo Mussa; Rafael Bergman vira CFO.
FY2024/25 Prejuízo R$ 4,2 bi; dívida líquida R$ 34,3 bi; alavancagem ~3,2x. Clima adverso (secas/incêndios) atinge a safra.
12/02/2026 Resultado do 3T25/26: prejuízo R$ 15,6 bi; dívida líquida R$ 55,3 bi; alavancagem 5,3x. Empresa contrata assessores (Rothschild; Pinheiro Neto; Cleary).
09–10/02/2026 As três agências rebaixam: Fitch a CCC (depois C), S&P a CCC+, Moody's a Caa1 — todas perdem o grau de investimento.
Fev–Mar/2026 Impasse entre sócios: Shell propõe capitalização (R$ 5 bi) vs. Cosan/BTG (conversão + cisão). Em 04/03 as negociações de aporte são encerradas.
11/03/2026 Protocolo da recuperação extrajudicial — a maior do Brasil.
Jun/2026 Plano final: adesão ~75–80%; Shell R$ 3,5 bi; venda da Argentina (US$ 1,42 bi). Em 29/06, PwC divulga going concern; PL negativo −R$ 8,3 bi.

Os quatro erros estruturais

4. A trajetória financeira em números

O ponto mais eloquente é a distância entre o EBITDA ajustado (R$ 11,3 bi) e o EBITDA contábil (R$ 1,1 bi) no exercício — a diferença são os impairments — e o fato de o resultado financeiro (−R$ 11,9 bi) ter superado a própria geração operacional.

Indicador FY 24/25 3T25/26 FY 25/26 (mar/26)
Prejuízo líquido −R$ 4,2 bi −R$ 15,6 bi −R$ 27,1 bi
EBITDA ajustado R$ 3,15 bi (tri) R$ 11,3 bi (−2,3%)
EBITDA contábil R$ 13,7 bi R$ 1,1 bi (−92%)
Resultado financeiro −R$ 11,9 bi (+59,7%)
Dívida líquida R$ 34,3 bi R$ 55,3 bi R$ 58,2 bi
Alavancagem (DL/EBITDA aj.) ~3,2x 5,3x
Patrimônio líquido positivo −R$ 8,3 bi
Capital de giro −R$ 51,2 bi

Dívida bruta total ~R$ 75 bi; sujeita à RE ~R$ 65,4 bi. EBITDA ajustado exclui itens não recorrentes; o contábil colapsou por impairment/baixas fiscais (~R$ 22,5 bi). Números do exercício encerrado em 31/03/2026 (Raízen fecha ano fiscal em março) — conferir nas DF auditadas (RI).

O detalhe decisivo: o capital de giro negativo de R$ 51,2 bi e o PL negativo de R$ 8,3 bi mostram que a empresa não é apenas ilíquida — é patrimonialmente insolvente pelo critério contábil. Não há como servir a dívida com a geração própria, e o crédito fechou (perda do grau de investimento). A RE é a única alternativa à recuperação judicial.

5. Diagnóstico pela metodologia QUANTUMCD

A metodologia QUANTUMCD lê o risco pela cobertura de juros (métrica antecedente) e por uma tipologia de dois modos de falência (asfixia e erosão). Na Raízen, os dois se combinam.

5.1 A cobertura de juros ruiu

O melhor termômetro antecedente é a relação entre o que a operação gera e o que paga de juros. Na Raízen, o resultado financeiro de −R$ 11,9 bi e o serviço da dívida de ~R$ 10 bi/ano superaram o EBITDA ajustado (R$ 11,3 bi) — cobertura em torno de 1x. No EBITDA contábil (R$ 1,1 bi), a cobertura fica muito abaixo de 1x. Descontada a depreciação, a cobertura por EBIT é negativa.

Base Geração Serviço/juros Cobertura
EBITDA ajustado R$ 11,3 bi ~R$ 10–12 bi/ano ≈ 1x ou <1x
EBITDA contábil R$ 1,1 bi ~R$ 10–12 bi/ano muito < 1x

5.2 Perfil: asfixia consumada em erosão

O perfil ASFIXIA (juros > geração) foi levado ao extremo até virar EROSÃO (PL negativo −R$ 8,3 bi). Quando os dois mecanismos coincidem, a mortalidade é máxima — e explica por que o plano recorre à equitização: converter 45% da dívida em ações é a única forma de reconstruir o patrimônio destruído.

Consequência metodológica: os índices de estrutura enganam em janelas — em FY24/25 a alavancagem de ~3,2x ainda parecia administrável para uma utility. Foi a velocidade da deterioração (3,2x → 5,3x em um ano; PL positivo → −R$ 8,3 bi) que a cobertura de juros já sinalizava.

5.3 Não é um caso de fraude

A deterioração foi reportada trimestre a trimestre — prejuízo, impairment, alavancagem crescente, rebaixamentos públicos. Está dentro do alcance dos indicadores contábeis, ao contrário de balanços que mentem. O modelo captura a asfixia visível; aqui ela foi visível.

5.4 A manifestação da auditoria (PwC)

Regra de análise: toda manifestação formal da auditoria é confrontada com o nosso diagnóstico. A PwC aprovou as demonstrações sem ressalva, porém com ênfase de incerteza relevante quanto à continuidade (going concern), apoiada no PL negativo e no capital de giro negativo. Essa manifestação corrobora integralmente a leitura QUANTUMCD. Onde agregamos além do auditor: a cobertura de juros já apontava a ruptura antes do fechamento do exercício — antecedemos e quantificamos o alerta que a auditoria reconhece em março.

6. Tendência e projeção

Tendência (fatos): prejuízo crescente (R$ 4,2 bi → R$ 27,1 bi), dívida líquida quase dobrando (R$ 34,3 bi → R$ 58,2 bi), alavancagem 3,2x → 5,3x, PL para −R$ 8,3 bi e perda do grau de investimento pelas três agências. Deterioração sistêmica em 12 meses.

Projeção pela metodologia QUANTUMCD: E[Firma] = FCD × (1 − PD) + Liquidação × PD. Com PL negativo e going concern, a PD está elevada e o valor esperado se desloca para o termo de liquidação/reestruturação — precisamente o que a conversão de 45% da dívida em capital e a diluição da Cosan a ~3–4% materializam. O upside passa a depender da execução da cisão e da volta do EBITDA a cobrir o serviço da nova dívida.

Cenários

Cenário Gatilho Desfecho provável
Base — RE homologada Adesão ~75–80% consolidada; conversão + aportes (Shell R$ 3,5 bi) Dívida reduzida via equitização; credores >80% do capital; cisão em duas empresas até 2027; sobrevida condicionada à retomada de margem
Adverso — quórum/assembleias Falhas de quórum ou contestação de classes de credores Prolongamento e litígio; risco de conversão em recuperação judicial e novas vendas de ativos
Cauda — execução da cisão Separação Combustíveis × Energia mais lenta/cara que o previsto Combustíveis (resiliente) sustenta o grupo, mas a Energia (açúcar/etanol/E2G) segue drenando caixa

Fator crítico: o segmento de combustíveis (marca Shell) é o ativo resiliente — margem de R$ 199/m³ (+27%). A tese de recuperação depende de isolar essa geração de caixa do braço sucroenergético, que concentra o impairment e a incerteza climática. A cisão é, ao mesmo tempo, a solução e o principal risco de execução.

7. Como as fragilidades poderiam ter sido enfrentadas antes da crise aguda

O diagnóstico antecedente abriria janela de ação: a cobertura de juros já se deteriorava em FY24/25, quando instrumentos menos destrutivos que a RE ainda estavam disponíveis. As alavancas, na ordem em que deveriam ter sido acionadas:

Em resumo: agir no primeiro sinal — a conta de juros crescendo mais rápido que a geração — e não quando o patrimônio já é negativo, teria transformado uma reestruturação sob pressão em um ajuste ordenado.

8. Insights setoriais — combustíveis e sucroenergético

A Raízen expõe uma assimetria dentro do próprio grupo: um braço resiliente (combustíveis) e um braço cíclico e intensivo em capital (açúcar/etanol). A crise não veio da demanda por energia, mas da estrutura de capital que financiou a expansão do lado mais volátil.

Lição transferível: em negócios de capital intensivo e cíclicos, o gatilho preditivo não é a receita (que cresceu), mas a cobertura de juros e a velocidade da alavancagem. Grupos que misturam um core resiliente com apostas cíclicas devem isolar a geração de caixa do primeiro antes que o segundo a consuma.

9. Fontes

• Monitor RGF-BIZDOC

• InfoMoney (entenda a crise da Raízen)

• InvestNews (balanços 3T26 e FY25/26)

• O Bastidor (going concern PwC / PL negativo)

• Brazil Journal (adesão de 75% dos credores)

• XP Investimentos (acompanhamento da RE)

• Safra / O Especialista (ratings)

• Money Times (Fitch)

• M&A Teaser (venda Argentina/Mercuria)

• CNN Brasil

Aviso: material analítico e informativo, não constitui recomendação de investimento nem assessoria financeira ou jurídica. Números de fontes públicas, sujeitos a conferência nas demonstrações oficiais (CVM/RI).

Claudio Damasceno

Sócio Bizdoc Change & Management e RGF ASSOCIADOS

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